Uma semana depois do maior acontecimento de 2009, o Costelinha traz para você, querido leitor, um relato um tanto quanto pessoal a respeito do que com certeza ficará marcado para sempre na história e que com certeza entrará na retrospectiva da Globo deste ano.
Eram 22h00min em ponto quando os primeiros beats de “15 Step” saíram dos auto-falantes da chácara do jóquei. Pronto. O Radiohead subia ao palco para se consagrar como a maior banda de todos os tempos, indiscutivelmente. Logo após os quase 4:00 minutos de música o que se ouvia além dos gritos eufóricos da multidão paulistana (por assim dizer, já que lá tinha mais gente de fora do que qualquer outra coisa) era o recíproco aplauso vindo dos membros da banda como uma reverência ao público brasileiro.
“Boa noite”, disse Thom Yorke, o gigante minúsculo por trás das maravilhosas músicas da banda, enquanto a equipe de palco preparava os tambores para a música seguinte: “There There” na qual se podia ver sob uma iluminação azul-lilás uma banda mais do que bem ensaiada, como se diz no meio da música, além disso, uma banda perfeitamente entrosada, com mais de vinte anos de palco e muito amor pelo que faz. Sob a luz lilás-azulada via-se um Thom Yorke com os olhos bem abertos – por incrível que pareça – olhando diretamente para frente, entre um Jonny Greenwood encapuzado – um casaco tão lilás quanto às luzes do palco – e um Ed O’Brien feliz por estar no país cuja terceira maior cidade – Salvador – tem o mesmo nome de seu filho. Logo após o primeiro refrão, com guitarra em punhos, o estilo inconfundível de Jonny Greenwood ao tocar trouxe consigo uma luz avermelhada que guiou a platéia em êxtase até o fim da música.
“Band FM, a rádio que São Paulo…. SHHHHHHHHSEEEHHHHHHH booooooooooooingg wooooooooooooshhh… O presidente da república… uusssssssssssshhhhhhhhhhhhhhh”
Pensamos que algo tinha dado errado – uma interferência, talvez? Não, tudo planejado. Como de costume, em “The National Anthem”, nossos meninos ligam um rádio e sintonizam quatro estações locais randomicamente e usam como “efeitos” nas suas músicas. As luzes vermelhas continuavam vermelhas e o que se ouvia era o baixo sintetizado de Colin Greenwood – várias vezes confundido com James Blunt pelo imbecil ao meu lado. Atrás dele vinha a bateria precisa de Phill Selway, que por incrível que pareça, foi esquecido pela imprensa brasileira, não aparecendo em nenhuma foto, filmagem ou relato sobre o show. Juro. Eu seria capaz de escrever um livro sobre ele durante o show e aposto ninguém compraria por não saber de quem se trata…
Falando das luzes, o sistema de iluminação do Radiohead chama atenção por si só, não por ser um show à parte ou por ser composto por gigantescos tubos verticais de luz que mais parecem lâmpadas florescentes, mas por ser uma tecnologia completamente inovadora que consume 30% menos do que qualquer outro tipo de iluminação de eventos. É, meu povo, Radiohead é mais uma daquelas bandas preocupadas com o futuro do mundo e blá-blá-blá. 
Seguindo em frente, temos uma série de músicas tocadas ao piano, sendo elas a emocionante “All I Need”, cantada com a mais profunda emoção por Thom Yorke e acompanhada de perto e bem baixinho pela platéia. Não se esquecendo de que estamos no Brasil, é óbvio que algo deveria estragar este momento e nos trazer de volta à realidade; e isso ficou por conta dos nossos queridos vendedores ambulantes que resolviam gritar mais alto do que a banda nas músicas acústicas e tudo que se ouvia era ÁGUA, ÁGUA MINERAL CINCO REEAL, OLHA A ÁGUA. Tudo bem, todos precisam sobreviver. Logo depois veio a primeira surpresa da noite: “Pyramid Song”, do disco mais experimental da banda, “Amnesiac”. Uma coisa é certa: se você gosta dessa música no disco, ao vivo ela é melhor ainda. E se você não gosta, procure por ela ao vivo porque vale muito à pena. Dava pra ver pela expressão da platéia que qualquer coisa poderia acontecer depois daquela música. Digo, se eles tocaram uma das mais experimentais, poderiam muito bem passar o resto do show fazendo experimentalismos loucos e frustrando os que lá estavam por causa de In Rainbows e Ok Computer. Não, eles são loucos, mas não são burros. O que veio a seguir foi o hino radioheadiano, “Karma Police” que levantou isqueiros e vozes numa platéia que havia ficado apática na música anterior.
Obviamente, a esta altura do campeonato, Jonny Greenwood e sua notável aversão ao palco ou ao público, não sei, já tinha removido seu capuz e era todo franja, má postura, e movimentos loucos ao piano – que agora estava no fundo do palco – enquanto seu irmão, Colin, estava um pouco mais solto do que de costume, indo à frente do palco e tudo mais. Ignorando o coro da multidão, que cantava o refrão de “Karma Police” após a música, a banda seguiu com “Nude”, música que deveria ter sido o primeiro hit do In Rainbows. Um dos momentos mais bonitos do show, com certeza. Claro, mais uma vez a música foi atrapalhada pelos vendedores de água (o que pode ser conferido no YouTube) e também pelas palmas descompensadas da platéia que parecia mais eufórica do que atenta ao ritmo da música. Lindo de qualquer forma. E como se estivessem mixadas, uma puxando a outra, “Arpeggi/Weird Fishes” entra logo após Nude e lá fica até a hora que começa The Gloaming, o primeiro momento eletrônico do show.
Quem conhece Radiohead sabe muito bem que o Thom Yorke não resiste às músicas eletrônicas e dança descontroladamente. Haha, ele não é de desapontar seus fãs e dançou muito em The Gloaming, que entra no grupo das músicas que ficam melhores ao vivo. Esta versão com baixo, bateria e um suingue muito legal, foi o ponto alto do show para quem esperava um Radiohead animado em vez da banda “mórbida” que dizem por aí. Em outras palavras: quem não conhecia este lado do Radiohead, com certeza adorou este momento.
Bom, eu não posso me alongar demais, se não vou contar o show todo e isso não é legal.
O que posso dizer além do que já está escrito por aí é que além dos sucessos, do In Rainbows por completo, o que se viu naquele dia foi mais do que um show, mas um espetáculo de cores e sons, com luzes estroboscópicas, danças, e tudo mais. Um show que com certeza ficará na memória de todos e que, se tudo der certo, será apenas o primeiro de muitos que ainda virão por aí. Nós, público de São Paulo tivemos a sorte de ganhar mais um bis do que o povo do Rio. O que foi mágico, já que nós não íamos ver o maior sucesso da banda, “Creep”, que entrou de ultima hora no repertório e que foi o ponto alto da iluminação; todas as vezes que Jonny arranhava sua guitarra, uma explosão de cores colocava a platéia literalmente In Rainbows. Aliás, um repertório muito bom, com muitos sucessos, muitas músicas admiradas pelos verdadeiros fãs e muita emoção. É por motivos pequenos como a escolha da música que vem depois daquela outra música, como os intervalos para a degustação e por fim a cumplicidade da banda com seu público que a passagem do Radiohead pelo Brasil deve ser lembrada hoje e sempre como o melhor show internacional de todos os tempos. E não falo isso como fã, mas como músico, jornalista e ser humano com um pouco de bom senso.
Repertório de São Paulo, tirado do site do Multishow. – notem que duas músicas excelentes ficaram de fora, sabe Deus – Thom – por quê.
Tazo






