Lady Gaga está revolucionando o pop. Mas essa não é a minha revolução pop.*

(*um dia, o Álvaro Garnero dirá isso)

Comecei a escrever esse texto para pôr como comentário no post de Tazo, mas acabou ficando grande demais e acho que agora cabe como uma postagem própria de contraposição à opinião do colega Costeleta. O Costelinha é um blog de opiniões, afinal, de três pessoas com gostos e posições diferentes, mas sobre um tema em comum.

Eu até entendo o que Tazo está tentando falar, só que discordo de 80% do texto. Lady Gaga não pode ser comparada com The Clash, nem com Beatles, nem com Chuck Berry, nem com Michael Jackson. Sim, ela é, provavelmente, a única cantora pop atual que sabe se aproveitar dos elementos da cultura pop, brincar com isso e se promover através disso. Ela entende muito bem a geração do YouTube e sabe como trabalhar a seu favor em cada elemento dos seus clipes e figurinos e das suas declarações. Isso não quer dizer que ela seja uma popstar completa.

Quem gosta de mulher gostosa vai a um show da Shakira.

Os artistas citados antes não mudaram o cenário pop apenas pelo visual, por polêmicas e aproveitamento de referências do mundo pop. Uma banda como o Velvet Underground precisou do Andy Warhol pra se promover, mas não se sustenta como A BANDA até hoje por causa dessa promoção. Antes de tudo, esses nomes citados não desqualificavam a música a favor do aspecto visual, eles usavam o visual para realçar as músicas – o Clash, por exemplo, sempre priorizou o aspecto musical e político da banda, antes do visual; os Beatles pararam de fazer shows quando perceberam que ninguém os escutava nos palcos –, e é nesse aspecto que Gaga peca. Seu som não muda em nada em relação à maioria das cantoras pop atuais. Rihanna consegue transgredir musicalmente mil vezes mais que ela, por exemplo. Metade dos hits de Britney são tão bem feitos para a pista – e, vamos lá, menos enjoados – que qualquer Bad Romance.

Quem gosta de cantora pop vai ouvir alguém com a voz da Beyoncé.

Além da pouca relevância musical, polemizar o tempo todo não choca mais ninguém. Polêmica não é mais exceção no mundo pop, é regra. Em tempos de Twitter, brincar com símbolos da igreja católica é tão transgressor quanto o último clipe do Justin Bieber. Nada que a Madonna não tivesse feito nos anos oitenta, numa época em que essas coisas ainda chamavam atenção. Lady Gaga tem um nível de porralouquisse tão calculado que é quase uma porralouquisse politicamente correta: dizendo que é porra-louca, mas nunca sendo junkie como a Amy Winehouse ou louca como a Britney Spears ou totalmente fora da realidade como o Michael Jackson. Ela se sustenta com essas mini-polêmicas sem prejudicar seu nome a ponto de criar uma rejeição do público. A Christina Aguilera também era assim há tempos atrás. É uma atitude que chama atenção por exatos dois segundos, antes do esquecimento.

Quem gosta de punk rock quer ver ela fazer sexo no palco enquanto injeta heroína. CADÊ QUE ELA NÃO FAZ?

Uma hora o repertório de regurgitações pop da Lady Gaga vai acabar, e, pelo ritmo frenético promovido por ela, isso vai acontecer logo. Tudo é feito de maneira artificial e programada para chamar atenção e antes que as atenções se desviem a próxima referência/polêmica já está acontecendo.  No final, quando tudo isso cansar, Gaga vai ter que arranjar um meio de se manter em pé e sua obra do passado não vai ajudar. Nem beleza vai restar porque bonita ela não é. Onde o texto vê uma Madonna, eu vejo a Cindy Lauper. Ela não está revolucionando cena nenhuma, só está sendo uma cantora de sua própria época.

P. S.: Mas a Cindy Lauper era mais legal.

Zé Marques

1 Resposta para “Lady Gaga está revolucionando o pop. Mas essa não é a minha revolução pop.*”


  1. 1 Tazo junho 20, 2010 às 9:22 pm

    Belo texto. Mas eu tenho que discordar de você em relação à qualidade musical da menina. Se a gente parar para analisar, poucas dessas cantoras pop sabem realmente fazer música. Tirando a Shakira, acho que nunca vi nenhuma outra artista dessas tocando um instrumento com a virtuose que a Lady Gaga toca um piano, por exemplo. Não sei se você sabe, mas os arranjos das músicas, as letras e boa parte da escolha dos timbres de sintetizador são feitos pela própria Gaga e isso já deixa ela milhões de léguas a frente das outras meninas do pop.

    Mas você tem razão quando diz que polemizar o tempo todo não choca mais ninguém. Ela peca nesse aspecto, mas mesmo assim, faz suas polêmicas de maneira impecável! Ou você acha que a Britney inventaria ter um pênis?! Ou admitiria ter LUPUS?! Não tem jeito, Zé, a menina sabe o que faz. E até sendo uma cópia, ela faz muito bem.

    Você falou do Velvet e do Warhol. Ela fundou a Hauss Of Gaga, uma espécie de Factory dos anos 2000. Lá se faz moda, cinema, música e todo outro tipo de arte. É essa a diferença que a Gaga faz: ela traz sua geração pra evidência com a maestria de um CEO, enquanto as outras bibelôs do pop não passam de bibelôs.

    Eu poderia entrar em todo aspecto musical e muitos outros detalhes aqui, mas eu to com frio e esse papo de Lady Gaga me enche, na verdade. Particularmente, eu não gosto e acho que a música dela é a menor fatia do bolo, mas tenho que dizer que faz um bom tempo desde que um popstar não chama atenção desse jeito.


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